quarta-feira, 16 de maio de 2012

Vendedores de jóias e pins na lapela . . .

Os vendedores de ilusões do Passos Coelhoso assentaram desta vez arraiais em Caçarelhos. Os deputados da Nação acordaram com o estrondo da queda dum anjo. Fernando Torquaz ficara intrigado com tão inesperado acontecimento e, para sua própria segurança, procurou albergar-se debaixo do velho capote de Calisto Elói. As ondas televisivas perturbam a mente, reconhece Torquaz, mas a queda dum anjo ultrapassa a sua racionalidade. Não seria antes um Objecto Voador Não Identificado (OVNI) que aterrara ali? Duvida dos seus próprios sentidos e, por instantes, perde a noção do real, pilotado pelo seu imaginário. Já não atina se de facto é a queda real dum anjo ou o despropósito do esvoaçar de anjos assexuados em território sagrado dos representantes da Nação. O que teria levado ao descontrolo alar da queda dum anjo no Parlatório? Os sons que acabara de ouvir traduziam alguma metáfora?  Seria pura ficção ou crua realidade?

Fig.1-Cruzeiro de Caçarelhos
Alvejado fora V. Gaspacho, mas ao menos esse tem existência real, pausada e bem cruenta, fala inglês e diz que não mente. Admite apenas, certos lapsos. Torquaz reflecte a sua peculiar especificidade temperamental. Atordoado com o impacto de tal acontecimento - A Queda dum Anjo,  depressa se recompôs voltando ao seu estado frio e racional. Calisto Elói, fora deputado pelo círculo de Miranda, figura literária de C. Castelo Branco, amaldiçoado da celebrada corja de políticos que, já naquela época, batiam no zé povinho com bravura desmedida. Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, nascido no distante ano de 1815 em Caçarelhos, era um rude erudito transmontano, ridicularizado no seu estado angelical pelas suas polainas e vestimentas de corte único, quando se apresenta no Parlamento.  O seu nome espanta qualquer bárbaro , pelo exagero de tantos nomes e pelo recorte de tantos "de" e "e". O pragmatismo germânico prefere a aglomeração de palavras e duas palavras são suficientes para caracterizar um índividuo.Os livros dos seus avoengos permitiam-lhe julgar os tempos da Roma Imperial, e tipificar os Dioclecianos, Calígulas e Neros dos tempos modernos. A sua vida não tinha lugar na história. Desposara novo a morgada de Travanca e, claro, a sua fortuna saira reforçada. Em Caçarelhos, as suas cogitações eram ouvidas com submissão e os seus ditos eram religiosamente registados. Era claro no seu pendor político. Fundamentava as posições nas antigas Cortes de Lamego. Primazia absoluta para o antigo, velha legislação, cartas forais e veneração da pura casta genealógica lusa, transmissores dos altos valores pátrios. Claro está que os fidalgos comarcãos não lhe suportavam o olhar altivo, de um  puro sangue genealógico. Um seu tio-avó perdera todos os seus anos à descoberta de actos indignos da fidalguia lusa, mas raramente descritos.  Legara a Calisto Elói um livro de memórias intitulado: Livro-Negro das Linhagens de  Portugal. Exibia a sua eloquência e dominava, a seu belo prazer, velhas linhagens com temas arrasadores.  Apontava vícios perversos como mancebias, adultérios, coutos danados e temas assim. Não se opunha ao progresso, não viesse o progresso importuná-lo a ele. Era homem inofensivo, esolhera a leitura dos clássicos para seu conforto existencial numa Caçarelhos intemporal e delegara, imagine-se, a liderança das courelas à sua dedicada esposa.

 O mestre escola e o boticário não partilhavam o seu ideário político , mas não conseguiam esgrimir os seus argumentos ao ponto de importunar Calisto Elói. O morgadio e os seus proveitos completavam a supremacia sobre os tímidos rivais. Tão superior era a sua erudição sobre o mundo romano, e temas abrangentes da nacionalidade que, numa mordomia sua da festa de São Sebastião, fora apontado  para a governança de Miranda. Aceitara a alcaideria, mas as suas teses fundamentalistas assentes num passado longinquo, de pronto tiveram uma reacção dos vereadores de Miranda e o inevitável abandono, de moto próprio, de Calisto Elói. Governassem, pois, os restantes. O seu morgadio permitia-lhe, com desafogo de vida, prosseguir a sua cultura clássica e o casamento sem amor com a morgada de Travanca. A sua erudição era tal que nas redondezas se apontou o seu nome para lídimo representante como deputado da Nação pelo círculo de Miranda. Na verdade, para os ilustres agricultores possidentes, o então representante de Miranda andava perdido por Lisboa, com vida devassa e beberragem vínica a rodos, e os seus eleitores não conseguiam localizá-lo na selva lisboeta. As cunhas e influências  ficavam assim bloqueadas por falta de destinatário.

O teste decisório dos livros antigos ia fulminando o erudito Calisto Elói. Fiado pelas virtualidades das fontes de água lisboetas, descritas nos seus livros de referência, levaram-no, num ápice, a leito prolongado. A suposta formusura das faces rosadas das mulheres da capital do reino atribuída às fontes lisboetas levara-o ao desprezo e chacota da madre dum colégio de freiras, de rostos lívidos e desconcertantes. Calisto Elói não era desprovido de inteligência, mas a desconexão dos seus pressupostos mentais e a realidade era abissal. Causa e efeito eram divergentes. De decepção em decepção, foi tomando conta do pulsar malévolo da capital. Nas suas andanças pela procura de habitação condigna, bateu com fragor no lamaçal de Alfama, nos comentários jocosos da populaça, no ridículo do provincianismo asumido e para cúmulo, meteu-se em locais onde marinheiros, libertinagem e vidas amorosas sem destino definiam as suas regras. Cais do Sodré, próximo dos estaleiros de caravelas. Manifestamente os seus primeiros passos na capital desenrolaram-se todos em contramão.  O mundo lisboeta afastava-se da idílica Miranda e a chacota fazia parte da lei da selva. Gozado fora também pelos comerciantes, arautos do progresso, ao procurar o Chafariz dos Cavalos soterrado havia muito pelo terramoto de Lisboa.

Tal foi o percurso da sua vida experimental fora dos distantes serros do Pedriço, que bordejam Caçarelhos. A estreia do desconhecido parlamentar Calisto Elói no Parlamento, que nem a figura ridícula da sua indumentária nem a protecção manifesta do Abade de Tibães o fez vacilar, desencadeou um forte impacto, cativou os seus correligionários e tirou, do sério e da galhofa, os seus opositores políticos. Portugal estava alagado, dizia, numa onda de corrupção e compadrio  e a Pátria teria que ser salva por homens virtuosos, impolutos e eruditos. A filtragem obrigatória de toda a actividade parlamentar tornara-se imperativa para C. Elói, remando contra o escárnio e os regulamentos do Parlamento e as ímpias leis, exploradoras infames de impostos sofridos. A luta era desigual, impiedosa e desproporcionada. A mesquinhez dos parlamentares, seus pares, não lhe poupariam o atrevimento de provincianismo prímário. A força de Calisto Elói residia no conteúdo e não nas formalidades da praxe. A sua altivez não vergava perante os seus pares, de ética e moral, duvidosas. Tinha um profundo desprezo pela maioria deles, fazendo valer a força moral derivada dos seus maiores.

Considerava-os como invertebrados sem capacidade de posicionamento vertical, sendo o seguidismo cego e a bajulação do chefe  a única prática social. Fora apontado para parlamentar dos seus eleitores, como melhor protecção contra as investidas selvagens das traiçoeiras imposições de impostos. Requeriam quebra das décimas, e na posição avançada do tio Zé do Cruzeiro, a abolição total de todos os impostos. Se a capital não provia de estradas, de cultura e de um mínimo vislumbre de futuro, force-se Lisboa a tercer armas, tal como D. Teresa - mãe do infante Afonso fez no encontro de Ricobayo (Rio Esla). Os seus eleitores perdiam a vida dura em serras inóspitas, altaneiras, sem vislumbre de protecção, divina ou terrena. O seu primeiro acto político na Câmara procurou dinamitar a fórmula do seu juramento. Sendo monárquico legitimista,  decidiu colocar entre aspas o seu juramento e a sua erudição leva-o à conclusão que não poderia exigir-se juramento a quem potencie perjúrio. Caso próprio. Calisto Elói não se ajustava ao regulamento vigente. A boa fé, segundo os seus valores, devia substituir o juramento. O Abade de Tibães, transmontano como ele, já rodado em história política, convenceu o seu amigo, de que aquela fórmula de  juramento era uma mera palhaçada. Do perjúrio livrava-o ele, bastando ser fiel à religião, constituindo o juramento livre passagem directa a ateu. Ganhava todos os direitos de zurzir no rei e nas leis, a seu belo prazer, e simultaneamente ser seu defensor. Claro está que o acesso a prebendas e mordomias, públicas ou privadas ficavam garantidas, e a carteirinha individual protegida pela imunidade parlamentar e pelo segredo.

 A celeuma do juramento criou burburinho na Câmara, aplausos e apupos sucederam-se para aumentar o ruído de fundo. Os legitimistas viam nele um português à antiga, audaz, erudito e honrado e,  por se tratar de uma ave de arribação, a oposição delineou uma estratégia para o queimar em lume brando. Habituados à prática da mentira, esmeravam-se na procura de falácias e não faltaria tempo para enlear Calisto Elói em enredos perigosos. Mais cedo que tarde. Um novo Dom Quixote lutando contra moinhos de vento.
A entrada no mundo da cultura e da civilização, ou do mundo pecaminoso da devassa segundo C. Elói, foi acompanhada de perto pelo Abade de Tibães. Este convidara-o,certa vez,  a uma ida ao teatro onde se desenrolava a peça lírica Lucrécia Bórgia. A devassa diva exacerbou a quietude dos pensamentos reflexivos de C. Elói sobre o conceito de Arte greco-romana. A esta mistura explosiva, juntou o Abade o argumento do subsidio  estatal, com impostos da Nação. Perante estes factos, praguejou contra tudo e contra todos, não poupando sequer o amigo Abade. Pela mesma altura, reclamou um deputado- Dr. Libório um subsídio análogo para o teatro de Sâo João no Porto. A talhe de foice, esgrimiu os seus argumentos contra a camara, dita civilizada. Contaram-se sussurros, vaias, apupos, bravo, bravíssimo  e apoiado. Intrépido, assume-se como provinciano e demodée, e enfrenta sem vacilar a trinitruante turba parlamentar.  Em nome da vossa justiça e opulência, alimentem o circo lisboeta dos deputados, paguem principescamente do erário público as devassas Lucrécias Borjas, taxem , sisem, espoliem,  liquidem de vez os miseráveis do país. Em nome da vossa justiça, condenem igualitariamente a sociedade portuguesa, como iguais devassos e gastadores, em desiguais terras e comendas. Condenai ao purgatório desta vida o contribuinte das serranias e ilibai os corruptos.  C. Elói, picado no espírito pela luxúria do reino, fustigou a Câmara de deputados com violentas diatribes verbais. O Abade de Tibães não conseguiu manter o homem nos estribos. Fora provocado num debate  da legislação sobre importação e direitos de objectos de luxo.  A previsivel humilhação na Câmara apontava para os desajeitadas vestimentas do provinciano.  A sua mente era vergastada por um pensamento constante. Lá pelas serranias, tratava eu bem destas bestas. Com qualquer arreio de animal digno desse nome, a dignidade humana seria reposta no acto. Despercebida passou esta frágil propensão ao Abade de Tibães e correlegionários amigos. Enveredara de novo pela argumentação clássica. O garboso Dr. Libório, deputado pelo Porto, assumira posição oposta ao de C. Elói. Gongórico e de discurso inócuo, iludibriava a Câmara com a sua retórica, para enlevo da maioria. Percebeu a inutilidade do dito cujo e pela primeira vez, formata a sua opinião sobre a maioria.O luxo vira-o o ilustre deputado do Porto, nos palácios de França, nas sumptuosas damas dos Champs Elisée, nas caleches da civilizada Paris, nas jóias de exuberantes madames.  "O luxo é o espantalho dos ânimos sandios e cainhos", disse. Afrontava, assim, o digno representante C. Elói. Tomara o veneno da víbora, tão receado pelo Abade de Tibães. Não habituado às tiradas poetico-filosóficas do Dr. Libório, à vacuidade do pensamento do citado, fugiu-lhe uma clara vitória no debate. Perdeu-se nos meandros da legislação sobre a Justiça. Vencera a suposta relação entre luxo e riqueza das nações.  Alguns aplausos se ouviram quando contra-argumerntou que quando  o luxo é maior, é proporcionalmente menor o número de ricos. Para alimentar o luxo há que responder com corrupção e devassa moral. Às sociedades de luxúria segue, invariavelmente, o ciclo do  declineo. E  a independência dos povos evapora! Assim cairam Roma, Pérsia, Egipto e o império Português, entre tanto impérios. Argumentos fracos para a Câmara.

Cioso da vitória, o Dr. Libório não se dignou sequer refutá-lo. Não descia ao nível do miserável e provinciano C. Elói. A imprensa governamental vilipendiou-o, preparando-lhe a cicuta mortal. De boa fé, admitiu que não era assim que se tratava um deputado da nação e se desreipeitavam os seus montesinos eleitores. Se tivesse que partir, partiria pelo próprio pé. Iria contar os factos aos seus eleitores. Todas as senhorias, condes, viscondes, fidalgos, burgueses e quejandos se haviam juntado no festim da humilhação de um homem, digno dos seus eleitores. Calisto Elói enfrentara a Câmara e ganhou, apesar de tudo,  a consideração de muitos deputados. As forças políticas presentes tentavam agora arregimentá-lo à sua tribo. Acercaram-se os deputados governamentais, com promessas de dividendos correspondentes à sua preclara inteligência. Desta tentação o procuraram livrar os correliginários da oposição, com o argumento das novas voragens de impostos governamentais que se adivihavam. Politicamente correcto, ia dizendo que quer uns quer outros não falavam português vernáculo. Nenhuma das seitas parlamentares lhe inspirava qualquer confiança. A meliflua teia ia, paulatinadamente, enredando C. Elói. A queda dum Anjo, sem mácula como é devida a um anjo, estava prestes a cair. C. Castelo Branco adiciona ao integro C. Elói, a incerteza dum coração de 44 anos. Uma vaporosa brasileira daria a C. Elói a vivência amorosa e o descongelamento da rispidez de preceitos, à custa dos cobres do morgadio e da destruição do casamento sem amor.   Assim, tentou interpretar Fernando Torquaz a citação no Parlamento da Queda dum Anjo.
A prosa já vai longa e termina por aqui o primeiro acto. Estamos "em vida fictícia como país independente", no dizer de Camilo. Deixou ao leitor a evolução da vida de C. Elói. Será contemplada no 2º. acto, com figurantes de pins na lapela , vendedores de jóias e rasgadores de bandeiras [A leitura do livro  "A queda dum Anjo" merece uma leitura atenta. A descarga do livro electrónico (*.pdf) é grátis, podendo ser acedido clicando aqui ].

As dificuldades financeiras do país são demasiado óbvias, mas o posicionamento do PM face às actuais dificuldades é perfeitamente previsível, por acefalia congénita e massacre continuado dos mesmos. Divirta-se clicando agora. Tempos de peste negra.

terça-feira, 20 de março de 2012

Zagalo, caçador furtivo ...

Zagalo estava na mira do insidioso guarda Fusqueto. Personagem maléfica, exercia o seu poder arrogante de modo discricionário e autoritário sobre a timorata população. Zagalo não fugia à regra e, na sua actividade furtiva, o silêncio era lei. Por vezes, quando a tarefa era exigente em termos operacionais, requisitava os serviços de Roberto, empurrando sempre Torquaz para uma tarefa desviante.Este ainda não tinha valência para uma actividade clandestina, nem a firmeza de carácter de Roberto. Também este ainda não revelava traquejo de emancipação. Zagalo não confiava em nehum deles, e por coerência, nunca lhes revelava os reais intentos de qualquer operação. Pelo contrário, dava-lhe pistas falsas para obter a sua cooperação. Avisado andava Zagalo. O guarda Fusqueto não ocultava o objectivo claro de enjaular  Zagalo. A discricionaridade dos seus actos levava à conclusão que havia informadores dissimulados que lhe forneciam informação confidencial. Zagalo movia-se numa teia de interesses mesquinhos e era alvo de atenção redobrada, em todo o instante e lugar. Qualquer passo em falso, ser-lhe ia fatal. Todos os seus passos aparentavam normalidade, e nas suas deambulações recorria ao seu pacato jumento para a deslocação às pequenas parcelas de terra, estrategicamente situadas. Nalgumas tarefas, de média perigosidade, recorria ao Roberto para o transporte da fusqueta , convidando-o a cavalgar o pacato jumento. Em caso de emergência, ambos voariam com o vento perdendo-se numa nuvem de poeira. Fusqueto já falhara cinco tentativas de apanhar os transgressores. Não se apercebia, porém, do ardil magicado por Zagalo. De início, provocara-o intencionalmente e havia-lhe facilitado a detenção por três vezes, com o resultado previsto: ilibados por falta de objecto material do crime (a fusqueta). Aumentou a parada, e após as cinco tentativas falhadas seguintes, acabara por desistir. Roberto largava a fusqueta no meio da mata carvalhiça e daí a fusqueta seguia oportunamente para o local do crime. Era tudo o que Roberto sabia. A partir daqui, existia um vazio total sobre a operação. Em caso de sucesso, era convidado para uma comezaina, em local nunca repetido. Zagalo recorria, na sua ideia, ao principio de menor risco. De todos as deambulações com Roberto,  a fusqueta só era envolvida raramente. Tinha uma noção vaga de segurança, mas eficaz. Ambos sabiam que fusqueta, na realidade, significava espingarda, termo que quase se confundia com Fusqueto. Assim, a mente não se olvidava da lembrança da perigosidade do transporte. Em caso extremo, da improvável intercepção por parte do guarda Fusqueto mostravam os seus  argumentos de rapazolas espigadotes e destemidos, e as tentativas falhadas avivavam-lhe a prudência. Invariavelmente, chamavam o cão do vizinho acusador, por eles conhecido e apelidado de  Fusco. Interpelados, respondiam senhor Fusqueto, mas a graçola era subrepticiamente entendida como cão do vizinho, seu protegido. Este não requeria licença camarária, ao contrário de muitos outros, pois estava debaixo da protecção do discricionário guarda Fusqueto. Era animal de pleno direito. Este era amigo fiel de Zagalo, registava o seu tratamento carinhoso e fugia do verdadeiro dono como animal abandonado. Permanentemente em crise, era de Zagalo que Fusco recebia algumas migalhas. Formavam um verdadeiro trio de ataque.
 Zagalo andava submetido a um colete de forças. Vivia amargurado em casa, de telha vã. Alternava entre a casa paterna e o palheiro. Decidia-se pelo palheiro em frias noites inverniças, mas quando chovia não tinha alternativa. O ano era longo e os dias sucediam-se miseráveis. Circunspecto e pensativo, remoia a ideia da falta de comida à mesa dos seus desnutridos irmãos. Não cedia à pressão da caça furtiva, enfrentando se necessário fosse o temido Fusqueto. Na vida não vale tudo, custe o que custar. Argumentava com razão que a caça era de natureza pública e o poder viera a apoderar-se dela. A dignidade humana permitia-lhe a revolta e lutava por causa justa. Um dos seus pequenos irmãos invectivou o guarda, perguntando-lhe pela papeleta do cão livre. Esta ocorrência chegou aos ouvidos de Zagalo, vendo nele um seu possível sucessor. O uso da fusqueta nem sempre o conduzia a um final feliz. A espera, silenciosa e prolongada, em local estratégico e de visita frequente dos coelhos bravos exigia um protocolo de procedimentos exigentes. A segurança era vital e Roberto incumbia-se de seguir discretamente as saídas nocturnas de Fusqueto. Em caso de emergência, acendia uma fogueira de aviso, em local apropriado. O ruído da explosão ouvia-se a grande distância e, de imediato, havia que abandonar a posição. Falhado o alvo, a fusqueta era abandonada no matagal para nova investida. A alegria dos seus irmãos ficaria adiada, mas com temperamento férreo não desistia de lutar. Os estampidos nocturnos acicatavam o pensamento tortuoso do guarda Fosqueto. A guerra titânica entre gato e rato prolongava-se indefinidamente. O tempo de impunidade jogava a favor de   Zagalo e, por oposição, a respeitabilidade de Fusqueto decrescia. Já circulavam, em surdina, comentários jocosos, pois ninguem percebia o investimento governativo no malquisto Fusqueto. Mas lei é lei, e não havendo prova flagrante não há detenção, argumentava ele. Assim ia Zagalo vivendo livre, sem liberdade. Até os ecos dos disparos se terem desvanecido na mente de Fusqueto, ia recorrendo a métodos alternativos, ora semeando ao vento armadilhas, perigosas e traiçoeiras, pelos montes ermos da Serrica, ora colhendo os produtos apanhados em utensílios similares de outros colegas de actividade clandestina. Vigiavam-se uns aos outros, embora fosse uma operação arriscada. Fugiam à teia da lei e dos regulamentos de caça, voltando aos tempos idos dos caçadores-recolectores, obedecendo à única  lei da sobrevivência.
Zagalo não esgotava as suas variantes de diversão clandestina. Quando, por acaso, lhe caía em sorte uma perdiz, era ouro sobre azul. Sabia procurá-las na Mó e no Vale do Quadro, seguindo a pista e os trilhos do tio Planilha. Os seus irmãos viravam anjos e Zagalo era o seu deus. Divertia-se com a sua satisfação, mas não ignorava a vida cruel e repetida que a sua condição de pobreza os levaria. Não era um coelho qualquer que lhe apontava o caminho da emigração. Era qualquer outra razão que não sabia explicar com clareza, mas que entroncava na sua vida miserável e de infortúnio. Em tempos de desânimo, transmitia o seu rudimentar pensamento ao entendido Torquaz. Este, por sua vez, transmitira já buriladas as ideias mestras do Zagalo a um perdido primo lisboeta, estudante avançado de filosofia. Em termos gerais, revelara que as dúvidas de Zagalo fazim sentido e que muitas das suas dúvidas podiam ser enquadradas na origem da família, da propriedade e do estado. Advertiu-o, porém, da perigosidade destas ideias. Torquaz não compreendeu nada do assunto, nem sabia o significado de propriedade e de estado. Era mais reflexivo que Zagalo, mas o que lhe importava era a sua genuina colaboração com ele. Libertava-o da monotonia de dias iguais, fugia à intrigalhada da aldeia e, ademais, gozava da natureza em pleno. Acrescia ainda que não era exímio na acção, como frequentemente Zagalo recordava. Refinadamente, era indiferente às actividades de Zagalo e a sua tranquilidade residia mais no pensamento que na acção. A verdadeira felicidade de Torquaz revela-se na contemplação da estrela boeira e do céu nocturno, em tardes e noites quentes de Agosto. A sua mente voava para outro mundo quando observava os satélites artificiais a passearem pelo céu estrelado. Andava intrigado com a descrição dos movimentos dos satélites, pois via-os deslocarem-se em sentidos opostos.
 Não aprendera ele na escola que a terra era redonda? Seria possível uma qualquer inversão de marcha no extremo do firmamento?

Fig.1 - Laika aprisionada

 Seria possível que a historieta mal contada da Bela Laika , permitia supor que Laika era mais inteligente que Fusco? Era ela, porventura, que permitia inverter o sentido da marcha? Nada para ele fazia sentido.
Era problema a colocar ao primo distante. Sentia-se, porém, bem no seu papel, e cada macaco no seu galho. Zagalo executava o seu papel, de modo independente e sem constrições, e a sua colaboração
resumia-se a um simples observador, colaborante das tarefas apontadas e por si nunca questionadas. As mentiras inocentes de Zagalo ilivavam-no, em caso de recurso, e a figura de tanso não lhe desagradava. Porém, não comia nem engolia as meias verdades de Zagalo.
 Zagalo era, apesar de tudo, um amigo fiel e constante. Já o havia protegido, em situações perigosas de sova certa. A seu modo, Torquaz também não deixava cair temas no vazio: um dia haveria de saber. As vagas sucessivas de emigração eram-lhe familiares, numa delas viu desaparecer a sua inconfessada amada Margarida Rute. Zagalo não ignorava o caminho do exílio, mas debatia-se com a questão da carta de chamada e da  falta de crédito para a viagem. Problemas que não tem solução, resolvidos estão. O dia de sorte ou azar, um dia chegará, dizia cabisbaixo ao amigo Torquaz. Talvez o vento confidencie o segredo ao magnânimo Furriel que, dizia-se, servia de banqueiro do povo e da miséria. Fazia jus a uma seguidora desconhecida de Teresa de Ávila, de terras espanholas não muito distantes.  Na vida de Zagalo, a dureza da alma e o corpo fustigado não lhe toleravam pieguices. A sua actividade clandestina era o único projecto de vida, era objectivo e baseava-se em causa justa. Na sua ideia, ficara-lhe este eco de um sermão inflamado sobre a guerra, convenientemente explicado pelo padre da aldeia, seu amigo. Em conversa paroquial, segredou-lhe alguns príncipios de vida e consciente da sua possível perdição conversava com ele, regularmente. Zagalo sabia da fraqueza do padre, pois vivia amancebado. Eram companheiros perseguidos. A uma pergunta inquisitorial do bispo sobre a sua vivência, supostamente  marital e duas crianças, filhas de pai incógnito, respondeu secamente: são filhos de Maria Madalena e meus sobrinhos, senhor. Estimo-as, enquanto dádivas divinas e inocentes, como qualquer pai que se preze o faria.
Para Zagalo, o perigo eminente era-lhe indiferente, e se um homem tem de morrer, morra de pé. Queria lá saber de pieguices, coelho bravio não tem alma nem sensibilidade. Zagalo descobrira o príncipio do aumento de productividade pelos seus próprios meios. Os seus métodos clandestinos de produção, garantia de sobrevivência, eram bastante limitativos mas tinham o mérito de ser moderamente perigosos. Fusqueto perdera sempre os duelos.
Em circunstâncias não reveladas, Zagalo decidira refinar os seus métodos de caça clandestina. Pela mão de um amigo incógnito, cansado deste ofício pela recusa  muscular, em anos de frio e chuva continuados, chegou ao mestre da caça clandestina.



 Fig. 2 - Acompanhante clandestino de Zagalo

 Detinha terríficos animais, que punham em pânico populações inteiras de coelhos bravios, furões de seu nome. A productividade iria aumentar, conjecturava ele, e o risco de ser apanhado em flagrante no exercício da suas tarefas clandestinas garantia-lhe, pela certa, incontáveis anos de prisão efectiva. Não era a vida prisional que o amargurava, pois em semelhante situação o estado garantir-lhe-ia comida sofrível e telhado coberto. Era, isso sim,  o opróbio e escárnio da população, por mau desempenho. Consciente deste facto, negociou as condições do respectivo contrato com o mestre. As cláusulas eram severas para Zagalo, mas quem não arrisca não petisca. À cabeça, pagaria a pronto o valor estipulado para o bicho e toda a produção era taxada a 25%. Os arredondamentos da partilha (para cima) eram sempre favoráveis ao vendedor, caso o número fosse superior a cinco. Negócio de agiota. Como em  qualquer vendeta italiana, se a origem do bicho fosse revelada teria que pagar com pesada pena corporal. Perante condições tão leoninas, Zagalo apenas conseguiu uma pequena cláusula, envolvendo treinamento real de uma hora, em local desconhecido.  A sua vida  dependia do seu bom aproveitamento e a sua vida futura estaria para todo o sempre associada à sua real eficiência no mister. Cumprida a primeira parte do contrato, recapitulou, em noite forçada de insónia, todos os detalhes e os mais ínfimos pormenores do comportamento do animal. Iriam colaborar intimamente e o sucesso de um arrastaria o do outro e vice-versa. As dúvidas, entretanto surgidas, foram devidamente treinadas em exercicios reais. Afeiçoara-se ao bicho e sentia-se preparado para um exame real, de natureza logística complexa. A existência do bicho só era do conhecimento do mestre e de Zagalo. O segredo era vital e imperativo. A operação requeria a intervenção de Torquaz, Roberto e, obviamente, Zagalo. A Torquaz estava atribuída a tarefa menor de simples vigilância do local envolvente, lá para as bandas do Vale do Freixo  e, colocado em fraga altaneira de granito teria que alertar os meliantes com os reflexos de um velho espelho. Zagalo tratou de deixar um pequeno saco de castanhas, para passar o tempo e enganar o estômago. Ficara combinado que, mais tarde, haviam de juntar-se com um outro muito mais pesado saco de castanhas, surripiado mais uma vez ao tio Canavarro. Alertou que a operação era morosa, pois, só avançariam com a certeza absoluta de que o saque teria pleno êxito. Poderia até prolongar-se para além do anoitecer. Não desagradava a Torquaz a ideia de recontar mais uma vez as estrelas do céu. A tarefa atribuida a Roberto envolvia o controlo de uma rede, vagamente piscatória, com uma mensagem codificada: apanha e ensaca. Por caminhos estranhos, Zagalo deu ínicio às  suas aptidões, ganhas  no curso abreviado e na sua aprendizagem pessoal. O seu arrebatamento foi total quando, finalizada a operação, Roberto havia ensacado nove, no limite máximo do seu conhecimento. Números grandes de milhares, milhões, milhares de milhão e por aí adiante, eram-lhe perfeitamente irrelevantes. Esses números eram, apenas, linguagem de políticos corruptos e do trio, só vagamente, Torquaz sabia a sua real valoração. Não era coisa pouca para Zagalo aumentar a productividade de um, dois no seu melhor, para nove. Era obra! Fora bem sucedido desta vez, e supersticioso como era, entrara com o pé direito. Escondido o contrabando, trataram de carregar o saco de castanhas no dorso do seu dócil jumento e foram confraternizar com Torquaz. Deram-lhe a primazia  da escolha da data do magusto. A logística ficaria por conta de Roberto e Torquaz. Desconfiado de tamanha amabilidade, agradeceu, vestindo a pele de um actor menor como se fosse um imbecil. A partilha foi feita com o que havia sido combinado. Três pertenceriam ao mestre, ficando apenas seis disponíveis. Um ficaria cativo para venda clandestina, e decidira dar dois a Roberto. Este recusou, levando apenas um, pois sabia da precária situação  de Zagalo. A alegria voltara à casa de telha vã. Afortunadamente, Zagalo progredia para um domínio completo do métier, e a acumulação das sucessivas vendas clandestinas permitiu-lhe aforrar o suficiente para a compra de um bilhete de 3ª classe no paquete Vera Cruz. Por vezes, mostrava reluzentes moedas cuja origem Fusqueto adivinhava. Tudo parecia uma vitória antecipada de Zagalo, quando decidira despedir-se dos amigos com uma peixaria especial. Fusqueto preparou-se para uma vigilância apertada, solicitando a colaboração de colegas seus. Eufórico pela partida, baixara o seu grau de profissionalismo. Partira para o rio com uma rede piscatória, e se a empresa fosse bem sucedida a despedida seria de arromba. Vigiado por Fusqueto, foi encurralado pelo rio e pela sua equipa de guardas. Apanhado em flagrante delito, sofreu a humilhação das algemas e foi conduzido ao juiz com a acusação de violação da lei da pesca, desobediência  e tentativa de agressão à autoridade. Os colegas de Fusqueto viam na acusação de desobediência e tentativa de agressão, uma clara manifestação de abuso de autoridade. E disso deram conhecimento ao juiz, em declaração individual. Sumariamente, Zagalo foi condenado a uma pesada multa, mas ilibado das restantes peças de acusação.O flagrante delito estava lá e, nesse aspecto, a vitória de Fusqueto era clara. Após a leitura da sentença, o juiz  interessou-se pelo seu caso e, em tom amical, explicou-lhe as suas consequências. Mandou-o passar novamente pelo tribunal para regularizar a questão da multa. O montante fora coberto, por empréstimo e sem juros, pelo banqueiro do povo. Radiante, apresentou-se ao juiz na data aprazada. Cumpridas as formalidades, o juiz deu o caso por encerrado. Recordaria para todo o sempre o tom afável da sua douta consideração. O Snr.Zagalo  é agora um homem livre e, no novo mundo, use a sua liberdade com honradez!
Antes da partida enfrentara Fusqueto pela derradeira vez. Malvado, não passas de um homenzinho, enxertado em corno de veado, dir-lhe-ia.

Fig.3 - Velha locomotiva a vapor, alemã.

 A sua despedida foi calorosa, não faltando a petiscada de peixes magníficos do rio, obra dos amigos. Roberto piscou o  olho e balbuciou um até breve. Despediu-se de Torquaz, com um enigmático: até sempre, camarada. Poucos dias passados, galgava léguas no planalto mirandês, sentado no velho assento de madeira do combóio, espólio da 1ª guerra mundial. Rumava ao cais da Rocha Conde de Óbidos, onde o Vera Cruz o esperava com a bandeira da liberdade.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Destinos cruzados

Margarida Rute, ladina e atrevida, vangloriava-se de ser a única rapariga da aldeia capaz de colocar Zagalo em sentido. Não vacilava na sua presença e, com voz viperina e em português vernáculo, humilhava-o públicamente. Zagalo já tomara a atitude de prudência preventiva e não se expunha demasiado às suas piadas chocarreiras. Não a ignorava, mas também não a temia. O poder juvenil assentava nestes dois personagens, liderando  as diferenciadas do pensamento primário recorrente: olho por olho, dente por dente. Companheiros de escola, leitores dos mesmos antiquados textos, alimentavam um ódio de estimação permanente. A relação de poder oscilava entre o temor e o ataque. Não havia poder absoluto. Os outros camaradas de escola não ousavam tomar partido declarado e, procuravam fugir da chuva, furtando-se aos afrontamentos directos. A mente de Fernando Torquaz, tímido e perspicaz, andava perturbada.. Num desses afrontamentos, sem pronunciar palavra, lançou um fugaz sorriso de apoio à causa de Margarida. Este gesto, breve e passageiro, não passou despercebido a Zagalo. Dissimulado, começou a registar os seus gestos. Margarida Rute brandia a sua espada, escudada na reposição da verdade justiceira e vingativa dos seus irmãos de sangue. Os seus pais, pequenos agricultores, à míngua de prendas terrenas, chamavam-lhe, simplesmente "Pérola". Zagalo sabia que não podia correr qualquer risco em confrontos directos, cumpria o básico, mas a sua mente não recusava o revanchismo. Talvez fosse este o sentido profundo da sua contenção preventiva.
Consciente da sua limitação de poder absoluto, assumia o controlo total de todos os outros rapazes. Liderava o planeamento e coordenação dos pequenos assaltos às propriedades que, desafortunadamente, lhe colocassem na sua observação de lince um belo exemplar de melão ou melancia. As cabanas rudimentares de protecção eram-lhe familiares. Sabia como contornar o previsível perigo e, como regra básica de comandante, nunca se expunha ao perigo, em primeira linha. Recorria a peões de brega, que invariavelmente arcavam com a responsabilidade directa do fracasso e para desespero do tio Manuel Canavarro, que liminarmente os ilivava pois sabia do bom comportamento de quase todos os seus pequenos estimados vizinhos. Desconfiava de mão alheia, mas os seus conceitos de justiça e verdade, que os seus antepassados lhe transmitiram, transformava o sentido da punição em bondosa conversa. Assim desarmava novas invasões.
Zagalo tinha que dominar, fisica e mentalmente, a sua gente de mão. Seleccionou  Fernando Torquaz para testar o seu domínio. Não se enganava ao considerá-lo um rival perigoso. Tímido, perspicaz, olhar matreiro, e pensador! Demasiados atributos, que não se conformavam com a sua liderança. Podia até transformar-se num delator, crime de abominável. Não podia correr tal risco, nem colocar a sua liderança em causa. Fernando Torquaz lançava, discretamente, olhares passageiros à sua colega Margarida que, colocada ao lado mas na mesma fiada de incómodas carteiras, nem se apercebia dos seus olhares indiscretos. Gravou para a eternidade, na sua memória, um pequeno sinal distintivo na face rosada de Margarida. Na mente desestruturada de Zagalo, observando à lupa e durante grandes períodos de tempo, este gesto sistemático por parte de Fernando só podia significar paixoneta de adolescente. Da hipótese, passou à certeza e a partir daí, arma de arremesso contra o espírito tímido do pobre Fernando Torquaz. Na agitação do recreio, acusou-o formalmente desta veleidade e fantasia, com ameaças directas de tramóia pública. Exigia, doravante, submissão absoluta. Aguardaria instruções a breve trecho. Zagalo já havia planeado o assalto aos melões do tio Manuel Canavarro, mas a decisão só lhe seria comunicada no acto. A mente de Fernando Torquaz entrou em instabilidade permanente que despertou a curiosidade de Margarida. A sua timidez impedia-o de afrontar fisicamente Zagalo, possante e intimidador. Não gozava do apoio dos irmãos de Margarida e ,afinal, um assalto a uma propriedade com melões também não era crime de monta. Inteligente, sabia que acto, sem ética e moral, é condenável, mas a razão da força de Zagalo mandou mais alto. A delação  é abominável, mas brandida por Zagalo turvava-lhe a sua lucidez. Fracassaria por cobardia. Zagalo saíra vencedor deste duelo. O seu sorriso para Margarida Rute não voltaria a ser o mesmo e este sorriso ternurento e delicado iria ter consequências no seu imaginário de vida projectada.  O plano acordado com Zagalo iria realizar-se no dia seguinte, à hora combinada. A tarefa atribuída ao Fernando Torquaz era simples. Deveria avançar resoluto para a recolha dos melões, que os despacharia de imediato para o intermediário Roberto que circulava junto à parede. Este, a coberto da vegetação, iria transportá-los até o mandante Zagalo. O festim só seria realizado após os melões repousarem no ninho durante uma noite e levados para outro local seguro. O plano foi executado com distinção pelo cooperante Fernando Torquaz. Saltara resoluto a parede, a cabana estava aparentemente vazia e a tranquilidade do local  mantinha-se. Tudo corria bem, não fora o saber de experiência feito do tio Manuel Canavarro e a inabilidade lógica de Torquaz. O tio Manuel Canavarro deixara desenrolar o processo até apanhar, à mão, o displicente Torquaz. Os movimentos do malandrim denunciavam  conluio. Bem tentou perscrutar o terreno limitrofe mas a sua decadente visão não lhe permitiu distinguir o rosto do intermediário. Zagalo não foi visto, ou sequer imaginado, pela figura rude mas afável do tio Canavarro. Torquaz havia falhado no seu teste. Também tu meu caro Torquazinho? A  tamanha pergunta frontal, reagiu Torquaz com um choro profundo de arrependido. A comoção do tio Canavarro levou-o de volta ao seu estado  bondoso. Zagalo, perante o fracasso da empreitada, tinha que salvaguardar a sua pele. Teria havido delação? Torquaz era, na sua opinião, um espírito fraco que aceitara a delinquência sem coragem para o enfrentar. Ficou na espectativa, dormiu naquela noite em distinto local, até que no dia seguinte decidiu confrontar Torquaz. A prédica foi tranquila e ficou sossegado. O fiasco fora assumido pelo malandrim Torquaz. Zagalo reforçou a sua ascendência sobre ele e declarou, solenemente, que qualquer hesitação no seu apoio, iria ser resolvida na casa de seu pai. Era tudo o que menos desejava ouvir. Em semelhantes trapaças, era a mãe que o tratava como um inofensivo judeu errante. Mas agora, o caso era sério. O mandante não brincava em serviço.Torquaz mergulhou em pensamentos existenciais. Zagalo mostrara do que é capaz e reforçou a sua capacidade de liderança.
Margarida Rute era eficazmente pragmática. Não tinha planos pre-determinados, agia rápida, enfrentava com palavras em calão, contrárias às leis da natureza, as poucas investidas de Zagalo. Reconhecia no olhar de Torquaz uma tristeza profunda, incompatível com o seu temperamento extrovertido e sarcástico. Alguns doces anos, já fora da escola, foram passados debaixo dos mesmos sóis e luas. O tempo necessário para ganhar orientação na vida. Margarida Rute, determinada e visionária, escondera de seus pais a decisão ir revogável da partida para a descoberta de novos mundos. Realista, amealhara um fraco pecúlio monetário que lhe quebrou  as amarras à sua limitada terra.  As lágrimas de seus pais transfomavam-se em rios, imaginou ela da janela do combóio ferrugento. Vacilou, mas não tremeu. Partiu um dia no paquete Vera Cruz. Mais tarde, pensou quantas lágrimas de seus pais andariam pelos mares. Pela primeira vez, a intrepidez de Margarida Rute fora seriamente abalada e os intermináveis dias de viagem no mar colocaram-na no estado emocional do seu querido companheiro Torquaz. Que felicidade persigo eu? Deixara para trás os seus amigos de infância e até mesmo Zagalo lhe não feria já o espírito, nem lhe danava a alma. O sentimento de gratidão sempre a acompanhara e, sem raiva da vida, envia um poster do paquete pátrio Vera Cruz, com referência explicita ao amigo Torquaz. O porto do Funchal mostrara-lhe a dura realidade da vida de marinheiro.

Paquete Vera Cruz
De tenacidade abrasiva, resiste e volta ao alto mar pelo caminho de Cabral. Desembarca, finalmente, em Santos. Luta, estóicamente, e quiz o destino traçado pelos deuses levá-la a Minas Gerais, onde criou duas pedras preciosas, divinas. Eram réplicas da "Perola" original. Os ecos do mundo reverberavam na sua mente, com indicação de que Zagalo se perdera no mundo brasileiro, entre belas baianas e alcóol excessivo. Torquaz, esse, tivera uma vida pacata por terras lusas, perdido em existências várias. O que perdia com timidez de alma, devolvia-lho a perspicácia de homem letrado. Manipulava, constava-se, os livros no seu inseparável e-book e, irónicamente, era amante das viagens.  Badalava-se que rejeitava, por escolha pensada, os modernismos dos facebooks e quejandos, tão ao gosto da geração das pedras preciosas.
O deusdado brasileiro havia decidido prendar as três jóias com uma estadia num hotel de luxo, na zona elitista do Lido (Madeira-Funchal). Justificação sucinta: bom aproveitamento no vestibular. Os deuses não dormem e quiz o deus grego traçar a teia dos destinos cruzados, deterministas, destes dois estóicos de juventude. Acontecimento improvável, mas tornado possível pelos deuses. As duas turmalinas, resplandecentes, coloridas e divinas, cintilavam nas negras pedras da praia, ofuscando em beleza qualquer francesa rafinée. O silêncio que se abateu na esplanada, deixava chegar o linguajar melífluo e divertido das beldades. Não escaparam também ao olhar matreiro do Torqual, mas a sua perspicácia levou-o a fixar-se subitamente, numa mulher madura, de linguajar transmontano-brasileiro que a denunciou. O espírito não o atraiçoa e fixa demoradamente um sinal na jovem da sua idade. Margarida Rute, estupefacta de tanto descaramento, lança um olhar intimidativo ao farsante. É neste preciso instante, que os deuses impõem as suas leis.  Rápida, felina e destemida, lança-se fogosa para a brasa em fogo do Torquaz. Ficaram enleados num beijo ardente e prolongado.  A cena não passou despercebida às suas jóias, tendo uma delas sussurrado um enigmático " Lindo, né pá?" Afinal, a transparência da Pérola fora sempre de uma transparência que excedia a de um cristal de quartzo hialino. A outra esboçara um superior sorriso feiticeiro, no mais puro estilo de Gioconda.
Para a Pérola, fora a única vez que falhara com as turmalinas. Foi um escasso minuto, mas na vida só vale o presente. O passado, já foi, e o futuro é desconhecido. É a lei da vida. Mas, mais uma vez uma Pérola não morre na praia. Determinada, imperial, chama as suas princesas e decreta, pragmáticamente "Jóias,  apresento-vos um meu grande amigo de infância, moldado pelas  mesmas geadas e que comeu o  pão que o diabo amassou em terras pedregosas".  Desarmara-as, com a elegância e finura de trato com que sempre as brindara. A transparência voltara de novo ao espírito inquieto e à alma imaculada das suas preciosidades.
A presença das fenomenais beldades e da resposta incisiva, clara e directa da Pérola exerceram sobre Torquaz uma pressão brutal. Perturbararam-lhe o seu elaborado pensamento e o livre arbítrio, necessário, na tomada de decisões. Titubiou, sentiu-se mesquinho e, lentamente, foi reagindo à situação.

Lido - Funchal (Madeira)

Ocorreu-lhe, então, argumentar com base num texto que acabara de ler . Era um pensador de Rio Frio e  que despertou a curiosidade das colegiais. Exímio observador, garantira um objectivo triplo: despertou o interesse intelectual das graças divinas, Rio Frio era nome reconhecido pela Pérola e remendou, atabalhoadamente,  a sua timidez.  Logo ali ficou uma promessa das colegiais. A perspicácia de Torqual revelava-se a cada instante. Atirou à Pérola, a sua incompreensão em tão estranho nome: Margarida Rute. Porque não Maria? Seria um segredo familiar? O seu e-book, à vista de toda a gente, encerrava escondidamente uma possível resposta. Cristão novo? Não teria o espírito aventureiro de Margarida Rute as suas raízes numa alma do Toledo medieval? E a sua propensão para a luxúria e para os cabedais? Torquaz conseguira dominar a complicada situação a que o beijo fatal o levara. Ávidas de saber, não deixaram cair as palavras chave lançadas por Torquaz: Toledo, nomes estranhos. Margarida, sibilina, percebeu o sentido hábil do seu amigo. Era esta a faceta principal que mais a seduzia. Apressadamente, Torquaz terminou a conversa com fundamento no avião que o aguardava no Aeroporto. A despedida de Margarida Rute terminou outra vez, com um beijo sentido a Torquaz, agora aplaudido pelas suas delicadas e sensíveis beldades. O registo foi transmitido em directo, ao deusdado brasileiro. Torquaz também não podia ficar impune a tamanho atrevimento e a elegância e esperteza  da juventude sem prémio. Pérola, ali mesmo, declarou ao seu amor brasileiro "Amô, as mininas reclamam nova viagem". Falou-se nas raízes, e em harmonia plena, logo ali foi despachado: " Aprovado, palavra de rei".

Funchal, V.Esteves_2012














sábado, 24 de dezembro de 2011

Boas Festas !

Bom Natal e Ano Novo de 2012. Nesta época, um bom texto para reflexão pode ser o livro "Meditações" -compilação dos pensamentos do imperador Marco Aurélio Antonino e seguidor da filosofia estóica.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Angueira e a nova Reforma Administrativa...

Mais uma reforma administrativa!

Os tempos que correm são de mudança permanente. Para quem estiver interessado, consulte a proposta do actual governo. Este texto é uma pequena e breve introdução, não a essa proposta governamental, mas a anteriores reformas administrativas. Não se pretende analizar todas as reformas, mas apenas fazer uma pequena referência à gestão administrativa de Angueira, desde tempos antigos até ao presente, e deste modo, fundamentar  a escolha que, porventura, seja democraticamente apresentada ou rejeitar qualquer arbitrariedade de uma imposição forçada.

I - A governação de D. Dinis prestou grande importância a dois factores : povoamento do território e  defesa do reino. O tratado de Alcanices veio definir, em definitivo, as fronteiras até aí com interesses difusos do Reino de Leão. Como Angueira faz parte do território fronteiriço, constituiu local de interesse no que respeita aos dois factores mencionados: a delimitação precisa do território nacional e o enquadramento no esforço da defesa do reino, com a construção de castelos como o de Algoso. D. Dinis elevou pequenas localidades fronteiriças transmontanas a municípios, numa perspectiva de desenvolvimento do território, aglutinação e coesão  e simultaneamente da sua defesa.
  • Desde o príncipio da nacionalidade até ao reinado de D.Dinis, a administração do território e o seu povoamento foi assegurado pela concessão de forais, cartas de couto atribuídas a prelados e suas Sés, Ordens religiosas monásticas e ordens militares e doações a indivíduos. Já referimos, o castelo de Soure, doado por D.Teresa aos Templários e reconfirmado pelo Infante Afonso Henriques. D.Afonso Henriques seguiu de perto mas não totalmente a política da mãe no que respeita ao povoamento e administração, de acordo com as potencialidades naturais onde se enquadravam. D. Afonso Henriques priviligiou as cartas de couto e doações a particulares. Angueira surge num pacote generalista do Mosteiro de Moreruela, localizado próximo da actual fronteira e sob influência política global do Reino de Leão. O conceito nacionalista não era, à época, o dominante e permitiu que o mosteiro de Moreruela compre Angueira e prevê que regulamente administrativamente a sua actividade económica, povoando, distribuindo terras, desenvolvendo, estabelecendo os príncipios mínimos de justiça e cobrança de impostos [V. fuero de Angueira (1256)]. Construção de moinhos e actividade piscatória são referenciadas no foro. As represas existentes que ainda hoje cumprem a sua função de  regularização do curso do rio são obra dos primeiros moradores e construidas sobre o saber técnico do Mosteiro de Moreruela [da ordem de Cister, França]. A política de D.Sancho I (1185-1211)  inflectiu a política anterior da outorga de cartas forais a Mosteiros e Ordens Militares, voltando-se para o aforamento ( 58 doações a particulares) de terras reguengas sob dependência directa do rei e dá início a um periodo de grandes tensões com os Eclesiásticos, dando assim origem a outros tantos municipios.
  • O movimento centralizador desenvolveu-se mais ainda com D. Afonso II (1211-1223) criando 28 novos municípios e com a atribuição de 92 foros por D.Afonso III (1246-1275), cobrindo grande parte do território nacional, Algarve incluído. Este rei trouxe de França novos conceitos e ideias, introduziu uma nova moeda, estando porém, limitado pelo acordão com Afonso X de Castela (em 1253) por causa do Algarve e , internamente, debilitado pela hierarquia eclesiastica devido a bigamia.
  • Segue-se D. Dinis (1275-1325), que no seguimento de D.Afonso III, teve que impor ordem na pressão exercida pela nobreza e poderosos homens leoneses sobre a fronteira de Trás-os-Montes, onde Angueira se enquadra. Leão estendia os seus tentáculos e influência à zona fronteiriça transmontana, desrespeitando quase de modo ostensivo o poder real português sobre esta zona (Inquirições de 1258).  Angueira (freguesia a abater!) está particularmente bem documentada neste período e os conterrâneos não imaginam que  poucas povoações se podem orgulhar de semelhante história. Para sanear de vez a luta (sem sentido...) de São Martinho de Angueira, a história é semelhante com a diferença de que São Martinho de Angueira viria a depender do Mosteiro de São Martinho da Castanheda (lago de Sanábria), de onde viria a tomar o nome (São Martinho). Têm de comum o facto de serem exploradas pelo mesmo poder, pagando impostos quase aos mesmos personagens. Angueira anda associada às aldeias de Ifanes, Constantim, Palaçoulo, Águas Vivas já que D. Sancho I (em 1211), cedeu este conjunto de aldeias fronteiriças  para povoamento ao Mosteiro de Moreruela, vindo esse povoamento a realizar-se alguns anos mais tarde.  Avelanoso e Serapicos,aldeias contíguas, foram povoadas pelos frades de Alcanices (Templários)   tendo um percurso distinto.
  • Angueira tornou-se conhecida  mais tarde pelo facto do choque de influência e poder (monástico de Moreruela) e o poder régio português, com processos judiciais  e contendas frequentes, com repercussão ao mais alto nível político da época.
  • Curiosamente, o foro de Angueira estipula, com certa precisão, a sua governança: actividade judicial, económica, pagamento de impostos (pelo São Miguel,..), economia (circulação do morabitino ou moravedi) .  De salientar que os frades de Moreruela já advogavam e praticavam uma certa forma de assistência social, com contrapartidas em termos de possessões (terras ou outros bens). Durante vários séculos assim foi, até um dia em que a governança se processava com base na frase "Para cá do Marão, mandam os que cá estão", e que por vezes assumia a forma prosaica  `a maneira de Camilo Castelo Branco- ... a canalha governa-se a si própria".
  • D. Dinis viria a conceder a carta foralenga a Miranda do Douro(1286), pondo um ponto final na influência leonesa nesta zona fronteiriça. A partir daqui, Angueira começou a gravitar em torno de Miranda do Douro e com a criação do Bispado ficaria como anexa da Paróquia de Ifanes, sujeita ao respectivo Abade, mas mantendo uma casa paroquial, hoje convertida em palheiro.
II - A actividade económica e a sua administração foi prosseguindo ao longo dos tempos, sem grandes sobressaltos numa base monótoma e sob influência dominante dos eclesiásticos. Vamos ignorar o hiato entre a administração dionisina e o Séc. XIX, em que se produziram, de facto, as grandes mudanças administrativas do território natural com o liberalismo [V. História concisa de Portugal, de J. Hermano Saraiva]. De acordo com este historiador, os pontos altos da legislação do constitucionalismo monárquico foram : a legislação de Mouzinho da Silveira (1832), a extinção das ordens religiosas (Joaquim António de Aguiar, apelidaddo de Mata-Frades, 1834), as tentativas municipalistas e a publicação do Código Civil. Mouzinho da Silveira é, geralmente, lido como homem integro, tendo sido abandonado pelos absolutistas (monárquicos), pois segundo parece seria pedreiro-livre (maçon) e pelos liberais já que diferenciava poder político e bem público, era integro e não demagógico. Qualquer comparação com o estado actual da coisa pública é pura fantasia. Actualmente é tudo gente séria,desvia o que pode, corrompe e é corrompido quanto baste, e não se esquece de pertencer a qualquer loja ou corte para atingir altas virtudes e protecção assegurada. A extinção das ordens religiosas acaba com o poder eclesiástico e os seus proventos. Confisca mosteiros e vende-os ao desbarato. Actualmente, estámos a assistir ao  remake do mesmo filme. O mesmo fervor liberal, resquícios do presente. Sector público uma peste para a economia liberal.
Angueira parece ser uma freguesia a abater pelo Relvas &Comp ª e convém preparar uma resposta nos campos relvados. Houve uma reforma administrativa (Decreto de Regência-Ilha Terceira,1830) que precedeu a de Mouzinho da Silveira (1832). A reforma de MS é centralizadora, sendo o  Reino dividido em  provincias, comarcas e concelhos, geridos por Administradores (Prefeitos, Sub-prefeitos e Provedores) de nomeação régia e apoiados por Juntas electivas (locais). Duas teses que ainda hoje se defrontam : teoria centralizadora ou descentralizadora? Todas as reformas que se seguiram estão marcadas por este ou aquele posicionamento, com prós e contras de parte a parte. Qual é o objectivo final? Melhor forma de sacar dinheiro ao Zé Povinho e a manutenção de clientelas! Dito de maneira mais suave : cobrança e distribuição de impostos. No último quartel do Sec.XIX, foram apresentadas cinco reformas da administração local (1878,1886,1892,1895 e 1900), juntando ainda cinco códigos administrativos (1878,86,95,96 e 1900). Foram objecto de estudo de Marcelo Caetano (desde 1836-1935), fazendo pare d e um curso normal de Direito.
Os códigos de 1878 e 1886 eram favoráveis a uma descentralização sensata. Consideravam os magistrados administrativos como entidades da Administração pública, não dependentes do local, mas estando presentes não estavam num plano omnipresente, já que havia juntas locais em segundo plano. Atenuavam a relacção centro-periferia. Rodrigues Sampaio sintetizou a sua argumentação da seguinte forma" Um bom sistema administrativo deve apoiar-se numa boa divisão territorial, e para melhorar a máquina administrativa local deveria coincidir o concelho com a comarca". Referia três termos "Administração, Fazenda, Justiça" no mesmo local. Em 1878 havia 21 distritos no país continental, 295 concelhos e 160 comarcas. A aplicação directa do critério prático reduziria significativamente  o número de concelhos, e não foi aprovado pela Câmara dos Deputados. Esta argumentação foi rebatida, precisamente na premissa que a supressão de um município constituia sempre um acto de centralização, um acto anti-natural que contraria o desenvolvimento histórico natural do municipio em Portugal, que materializava uma conjunção de interesses locais sagrados. Este ponto de vista foi defendido por vultos culturais de grande craveira como Alexandre Herculano na base de que os poderes locais constituiam a essência do poder democrático. De 1832 a 1887, a administração local oscilou entre centralizadora e descentralizadora. Contra a versão descentralizadora existia um factor importante a considerar: impreparação dos representantes locais (rareavam as pessoas que sabiam ler, e portanto não poderiam representar a dinâmica local e caminhar para o progresso e desenvolvimento do local).  O codigo de 1886 previa a possibilidade do governo fundir concelhos. Como se vê, a reforma liberal, quer num quer noutro sentido, foi amplamente discutida, pelos legisladores, parlamentares, pareceres vários, códigos e outros estudos. Podia ser interessante para os relvas actuais, que ao que parece já não toca nos concelhos para já, mas ataca nas freguesias. Não parece haver grande mal na supressão de Angueira, pois na verdade funcionou com representantes de partido único e só se prejudicou a si própria com essa mentalidade tacanha imposta, por vezes, por mandarins locais. Se é verdade, que estar representada em Vimioso não constituirá obstáculo de monta, já agregá-la ao concelho de Mogadouro - num qualquer pacote, Angueira deve considerar um rotundo não e deve oferecer em contrapartida ao Relvas um burro (animal sóbrio e de inteligente memória, como por lá se define!) que o conduzirá contrariado, em passeio turístico, de Angueira a Mogadouro! Porém o quadrúpede poderá conduzir o Relvas por outros caminhos, já que de espaço rural percebe nada, escolhendo Miranda do Douro ou ainda Bragança, por terras de Aliste.
Na década de 1880, havia uma corrente dominante para a associação de municípios. Remetemos os leitores para a análise deste período complexo da vida política, mas que tem a vantagem de apontar vários argumentos pró e contra. Houve quem defendesse a ideia de diferenciar os municípios , pois :" para efeitos administrativos , os municipios urbanos- próximos do governo, tem de fazer face a necessidades e meios financeiros superiores, por oposição a municipios rurais, cujo núcleo central é a igreja, baseada em interesses balizados por uma vida simples e interpendências simples de familias, maioritariamente católicas".
A questão do financiamento municipal é a base de todas as guerrilhas legislativas. Em 1872, Rodrigues Sampaio pretendeu impor alguma racionalização na divisão do território, mas não alterava o regime financeiro dos munícipios. A equivalência entre concelho e comarca foi rejeitada no Parlamento.  O código de 1878 atribuiu poderes  as camaras faculdades tributárias, em matéria de impostos indirectos, estendendo as possibilidades de tributação de artigos expostos -retalho, para artigos por grosso. Estes impostos acresciam aos impostos de carácter geral. Esta aventura durou dois anos, devido a desmandos da administração local. E aqui surge um dos retratos da situação actual. Luciano de Castro em 1880 dizia"  A ilimitada liberdade concedida às camaras para lancarem impotos, ..., estabelece de concelho para concelho desigualdades incomportáveis no ónus tributário..."  Só conduziu à desordem financeira , de criar dívidas incontroláveis ... necessidade imperiosa de tomada drástica de medidas para o saneamento geral da contabilidade pública ... credores à perna (ingleses) ...bancarrota. Este filme é actual, só que a despesa actual não provém essencialmente da administração local mas da vergonhice da falência de bancos privados e de  buracos financeiros mal contados! Um relatório de 1892, indica claramente " ... O tesouro não pode continuaer com o encargo de suprimentos a que o estado actual obriga, e o contribuinte , se não poe termo à desvairada tributação com que o perseguem as corporações locais, desde a Junta de Paróquia ate à Junta distrital, ficará exausto de recursos, e nem para o caso supremo da salvação pública haverá, dentro de pouco tempo, matéria colectável no País".
Foram apenas aflorados alguns aspectos da reforma administrativa no Sec. XIX.  Passos & Passos cantarola músicas antigas. Por esta época, os conceitos de unidade e solidariedade nacionais são invocados para fundamentar os príncipios sagrados "da escola liberal" associada aos "principios descentralizadores sem regras". O Zé Povinho nunca foge de malhas e redes artilhadas: libertou-se do tributo aos mosteiros, caiu na de váriados senhores possidentes, caiu na malha liberal- centralizadora ou descentralizadora, dos odiosos impostos municipais, libertou-se destes e caiu de novo sob alçadas de troikas antigas e modernas.
De 1878 a 1910, apesar de tudo os municipios defenderam-se como puderam, ganhando um pequeno poder  a nivel local apesar de antigos senhores das finanças públicas, como J.Ferreira Dias, quase lhe tivessem passado um papel de entidades descartáveis. De notar que o conceito de freguesia só surgiu com a República, confundindo-se praticamente o conceito de paróquia (eclesiastica)n com a paróquia civil, hoje designada por freguesia ( com algumas anexas). O desenvolvimento recente é conhecido da maioria, pelo que não será referido.
Conclusão : Traçou-se um percurso histórico da administração de Angueira, em pinceladas largas e parcelares. Não é do nosso conhecimento, uma vinculação permanennte a Mogadouro e nos tempos actuais não faz sentido qualquer tipo de subordinação a Mogadouro, incluindo o tema florestal.. Os governantes de Lisboa , autênticas iminências virtuais, não sabem o que significa uma deslocação a Mogadouro e são efectivamente mais potenciadores bombistas sociais que podem levar a um qualquer Maio de 68. Porque não reclamar um automóvel individual, um autocarro de luxo para a deslocação? Dependência de Mogadouro, não! Os taxis da região devem ser entregues a esses iminências já que permitem  o deslocamento por caminhos ínvios e evitam as auto-estradas transmontanas cuja factura recusariam pagar se tivessem poder absoluto. Para já ainda não têm, e com esta governança, nunca passarão de míseros  cobradores de fraque .

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A inteligência dos cretinos ...

Os patrioteiros do PM não poupam esforços para justificar o indefensável, a falta sistemática de coerência e a protecção da carteirinha privada. Repetem até a exaustão que o sacrifício é para todos e é um problema de emergência nacional.  Todas as posições destes, escritas ou faladas,  fundamentam o corte nos sálarios e reformas do sector público pois funciona esta quebra de justa expectativa como corte do défice público e assim ajudar a salvar a pátria que é de todos. Lançar meia hora de trabalho adicional, sem custos, para o sector privado é lançar poeira aos olhos dos cidadãos. Contribuem para a melhoria dos bolsos dos empresários exportadores (estruturas industriais sólidas nem precisam deste favor eufimistico do governo), piora o bolso dos pequenos industriais e comércio e é uma pura medida inócua. Serve, todavia, para contrapor ao roubo, descarado, brutal e indecente ao sector público. É claro que há gente do sector privado que delira com o facto. Aguardemos para ver se a faca não lhes será também apontada. A justificação peregrina do PM só revela que as suas afirmações não tem resposta em dados objectivos. Não é grave na boca de um cidadão qualquer, na de um PM é incompetência. Talvez desconheça, o que é grave, qual o salário mensal recebido em tempos recentes por um administrador hospitalar, de nomeação política patrioteira. Exemplos caem do céu aos milhares, mas determinados figurantes da TV não se cansam de repetir a justeza da medida. Sem rodriguinhos, falinhas mansas, imbecilidades, raiva antiga ou outra causa qualquer, a questão é simples: funcionário público (parte da população) paga e  do sector privado (outra fracção) não paga. Confunde-se o todo com a parte e vice-versa quando convém. O funcionário público tem sido,de modo sistemático, sujeito a uma contenção salarial e mesmo a sua redução de 5 a 10%. O desemprego na função pública também existe, por exemplo os professores. Se existe, como se diz, um estado de emergência nacional, então em que ficámos? Deixo uma pergunta . Qual o crime cometido por ser funcionário público? Sacrifícios sim, mas tomados por parvos não! Está escrito nas nuvens, a esperteza salóia do aprendiz de feiticeiro. A polémica do pagamento de 12 ou 14 meses é de cabo de esquadra. A Relva brilha com tanto fulgor que não permite equacionar o problema. Há nevoeiro cerrado. Trata-se da importância global de 14 meses dividida por 12 prestações? Há 12 salários, roubando 2. Aplicabilidade temporal?  O nevoeiro traz no seu seio mais imbróglios, quiçá mais buracos ou más tormentas. Falar verdade dói!
O neófito neo-liberal, sem consistência intelectual e teórica firme, pretende ser um bom aluno na Europa e nada melhor que exceder a troika, sendo mais carrasco do que se lhe exige. A pleiade de seguidores faz o mesmo, com os estafados argumentos.  Quando o chefe fala, o obediente e submisso carrasco, esquece eurobonds. Esquece reformas milionárias de gente que, tendo outras fontes de rendimento, e sendo  época de emergência nacional  passa, sem pudor,como pato sobre lago tranquilo. Pressionados pelas baionetas desesperadas que já se levantam, deixam cair subsídios e prebendas. Só que existem muitas outras que ainda têm que cair. Circulam na Internet  à mão de um simples toque, e esta também é uma maneira de questionar.
Alguns beneficiários destas reformas já abdicaram, e embora legalmente decididas pelos próprios, se a situação é de emergência nacional, não declarada, então sim os políticos e ex-políticos teriam actuado com seriedade e honra, abdicando delas. Tardiamente, e para não haver mais chatices com a pressão popular, abdicam não se esquecendo de referir a legalidade.  De facto, é assim. Porém, já se sabe que teorias morais não coincidem  com ética política. E então, nos casos politicos que vão surgindo todos os dias, moral, ética, justiça, economia e outras coisas, são conceitos petrificados. O resto é conversa fiada, letra morta. Uma farsa, levada ao palco com maus actores!
A Grécia decidiu baralhar a UE com a proposta de um referendo. Na sequência do que se escreveu, o assumir do pagamento integral da dívida e dos compromissos assumidos por parte do país não é questionável e é a única saída para um homem, português livre.Porém, não se pode aceitar de bom grado decisões cruciais de  um PM exótico que diz inverdades, se traveste de mais troikista que a troika, fala de palcos colombianos ou outros, gere o país à la carte e desperdiça toda a noção de bom senso político baseada num espirito construtivo de todo o país para a solução deste imbrógio de responsabilidade política e de grandes interesses econónimos. Objectivamente, não escolheu o processo construtivo solidamente assente na transparência de processos, sacrificios equitativos entre trabalho e capital. Pelo contrário, se o seu horizonte acaba no sector público como fonte de todos os males deste país, enão estámos perante um homem limitado. Só que o desfecho é trágico. O processo "grego" já está instalado em Portugal e fatal como o destino. Todos percebem que se se destroi toda a actividade económica que ainda resta, se o desemprego é parte menor em tudo isto, se se proletariza quase toda a classe média, se se  mente sobre o montante dos salários público vs privado, se as medidas de uma acalorada ministra da agricultura se reduz a gravatas, se qualquer ministro que se preze esmifra o cidadão até ao limite, então a saída vai ser brilhante. Fatal como o destino, não pagamento da dívida e Portugal lançado ao inferno do esquecimento, proscrito como herege pelo capital financeiro sem rosto e sem escrupulos, e com afloramentos directos nas cambiantes troikas portuguesa, grega ou outras. Money is money! We want our money back! Porém, ainda o processo pode avançar a outros patamares mais sádicos. A descida de patamar das reformas mais baixas. Há ainda o degrau, em linguagem marxista para chatear, do lumpen do proletariado. Ou em linguagem mais polida, em noite de bruxas-tempo de Halloween, mendicidade porta a porta confundida com a receita, pão por Deus! Resta saber como se aplicará  e aplacará a ira dos controversos deuses no espaço e no tempo!
A história aponta factos passados e, com distância temporal grande, consegue explicar com relativa exactidão a fundamentação dos factos. Quanto mais informado se estiver melhor se desmontam as situações do presente.  Meter Portugal, Grécia e Irlanda no mesmo saco´não tem qualquer sentido. Sacudir a Grécia como se tivesse peste, referir Portugal como Obama o fez, ou dizer que a Irlanda está no bom caminho é falar meias verdades. O país soberano que desejamos que continue só tem uma saída, resolver equitativamente os problemas financeitos actuais, com sangue suor e lágrimas assumido por todos (todos é mesmo todos) e estabelecer as bases do desenvolvimento tecnológico que, errada e deliberadamente se faz crer que está no voltar de 2012. Imaginem um circulo de patetas a afirmar que a Mercedes ou a WW são empresas que foram criadas ontem ou anteontem! A linguagem criptada dos políticos refere que a Irlanda está a começar a sair da crise. É evidente que as empresas tecnológicas lhe permitem vencer as dificuldades presentes. E Portugal ? Forçado a vender as empresas qe interessam aos troikistas. E porque não apontar baterias para as minas de ferro de Moncorvo, não descurando outras minas? Que ganha Trás-os-Montes com isso? O mesmo que com a EDP e as barragens. Nada, ou trocos miudinhos. Na linha do Sabor circulavam as velhas máquinas a vapor, espólio da 1ª.Grande Guerra. Beijavam a base dos montes do ferro e recolhiam as vagonetas a vermelha hematite  para a produção de ferro. Até um dia. Até que, e tudo o vento levou!!!
VE_0211_11

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

De passo em passo a Coelho bravio

  • De passo em passo a Coelho bravio

Em textos anteriores, apontámos o estado a que este pobre país chegou. Existem razões externas, recentes e antigas, e outras directamente resultantes de políticas internas levadas a cabo por políticos cuja responsabilidade e competência técnica e política deixam muito a desejar. As razões externas apontam para as onerosas e iníquas guerras dos USA, como policias mundiais dizem eles, e que culminou com a crise do subprime e a falência do 3º maior banco mundial: o Lehman Brothers. Os centros financeiros transformaram-se em casinos e não para financiar as actividades económicas produtivas. As off-shores de interesse americano e ingles proliferaram e mantem-se activas. Perdia-se o rasto ao dinheiro. Os bancos convencionais aderiram. O declíneo industrial dos USA, no contexto da globalização, já é visível e a riqueza criada transitou do dito mundo ocidental (USA e Europa) para o oriente (China). A Europa implantou as suas fábricas na China, explorando a mão de obra barata e sem direitos individuais ou colectivos dos trabalhadores chineses. Os produtos de baixo custo e, muitas vezes, de fraca qualidade invadiram todos os mercados europeus, incluindo o mercado português, os célebres produtos "Made in China". A maioria dos produtos portugueses deixou de ser competitivo, caso dos texteis e outros, e as empresas de tecnologia de ponta portuguesas sempre rarearam. Os fundos europeus entraram em catadupa. Desconhece-se, por não haver interesse nisso, qual o seu destino final. Onde foi parar o dinheiro? Aos bolsos dos funcionários públicos? Carrinhos, carrões, jipes e jipões são uma pequena parte do imbróglio e do iceberg que agora nos ameaça de modo letal. Scuts e auto-estradas, foram o destino mais directo e simples desse dinheiro. O cidadão comum ficou à margem dessa luta leonina de parcerias público-privadas, onde a corrupção, o compadrio, os contratos injustos, o benefício dos privados e os gabinetes dos advogados consumiram os dinheiros europeus, apesar de tudo provindos da Europa. Não há desculpa, o erro básico da má gestão é  da inteira responsabilidade portuguesa, com todos os políticos portugueses em primeira linha. Tudo começou mal com os primeiros dinheiros chegados, atribuiram-se subsídios e criou-se uma rede alargada de subsidio-dependentes, incentivando o abate de actividades produtivas, entre elas a agricultura e pescas, cuja responsabilidade é direcionada quase inequivocamente a um único destinatário (actual -PR) , bastando ler a imprensa. Começou mal, e mal continuou. As Scuts e auto-estradas eram um tanque gigantesco para onde escorria dinheiro a jorros, e à altura da construção das primeiras, inteiramente justificável.  Mas é óbvio, que se as primeiras se justificam em plenitude, a avidez do poder político e da manutenção das clientelas do tacho levou à construção desmesurada de uma grande maioria delas, e claro empurrando como última prioridade zonas despovoadas,como é o caso da auto estrada de Trás-os -Montes. Repetição do destino final do combóio em Miranda-do-Douro. Nunca lá chegou. Quadratura do circulo e a primeira linha de mira para a aniquilação de toda a linha férrea-linha do Sabor, e semelhantes Tua e Corgo. Irónicamente, a construção da auto-estrada de Tras-os-Montes foi decidida in extremis pelo governo Sócrates, já praticamente em ruptura com tudo e com todos. Bragança recorda quem e como fez evaporar o combóio do Tua a Bragança.  O cidadão deixou de receber mercadorias de e para Bragança. Punhalada mortal. O Itenerário principal IP4 chegou tarde e a más horas. As vítimas mortais sucedem-se. Grande parte do seu trajecto segue o secular caminho romano. O actual PM, com todos os elementos do seu governo, está a perder uma oportunidade histórica, não percorrendo de camioneta todas as curvas e contra-curvas desde Justes a Bragança. É aconselhável a companhia de toda a família, pois é uma situação mais realista. Era uma lição experimental soberba. Perceberiam que não existe alternativa ao IP4, penso eu, a qual por sua vez vai se houver dinheiro para tal converter-se na  hipotética auto-estrada transmonta. Paga tal como foi dito de inicio, não fossem beneficiar mais que os reclamantes algarvios sobre a via do Infante. E de todas as até aqui utilizadas sem portagem (A23,A24, A25, ...).
De toda a prosa anterior, deve concluir-se que os cidadãos são todos iguais perante o imbróglio letal em que  todos os portugueses estão envolvidos. Os políticos mentem quando dizem que não somos todos iguais perante este cenário de crise (frase humorística). Todos somos responsáveis e igualmente responsáveis, espante-se!
Contrariamente aos que os politicos e as suas claques dizem, a começar pelo PM, os portugueses já percebem com nitidez a mentira e a falácia dos políticos. Jogaram com a boa fé dos portugueses mas esse tempo acabou e, agora, as afirmações dos políticos são e devem ser testadas e escrutinadas, sem dó nem piedade. Olho por olho, dente por dente. Há muita gente inteligente, que de boa fé delegou nos políticos, a gestão da coisa pública. Estupefactos e tardiamente acordaram lubridiados. O tempo agora vai ser de combate. Acho que a JSD fez bem em iniciar a fogueira inquisitorial de responsabilidades. Aliás, é pelas várias juventudes, que o descalabro português começa e se perpetua. Ficam isentas todas as outras juventudes individuais-sem idade, as vítimas, recorde-se.
A proposta de OE-2012 revela o carácter neo-liberal, liderado por um ex-lider JSD, que renega dia após dia, o que no dia anterior afirmara. Olhe-se para a imprensa, para a rua, para o cidadão comum e faça-se uma  retracto deste personagem, aliás não diferente de anteriores e posteriores de diferenciadas juventudes. É rotulado de pouca solidez formação académica, surgiu tardiamente com muitos anos-38, após a idade da morte de J.Cristo. Diz-se representante de todo o povo portugês, arrogando-se o direito de manipular a espada sobre a cabeça de todos os portugueses. De facto não é: o seu poder advém de uma fracção dos membros do PSD, multiplicado pela fracção dos portugueses que nele votaram. A democracia é assim. Dito e aceite. Porém, há valores fundamentais que transcendem este poder delegado.
1. A chuva que a providência divina, seja ela qual fôr, dá como prémio a toda a comunidade portuguesa, vai deixar de o ser. Esse maná vai ser destinado à venda e sua comercialização, por uns trocos. Genialidade monstruosa. A água, valor estratégico inestimável para uma comunidade, entregue a negociatas.
2. A ira do PM contra os funcionários públicos está a levantar clamores. A falácia do PM não colhe. Como exemplo, o Público de 19.10.2011 mostra que os funcionários públicos não ganham mais 10% que os  do sector privado. Quando fala de sacríficios para todos os portugueses, ataca-se o sector público de maneira brutal e liberta dos mesmos, os do sector privado. Bem prega frei João, bem os seus acólitos se esforçam para justificar tal acto. O PM refugia-se na plateia PSD para encontrar algum conforto e repousar o seu terno ombro. Muitas vozes da tribo apoiam com veemência, muitos ainda imberbes. Não lhes toca nos seus bolsos.Veja-se o que anda a circular pela Internet, a título de exemplo.
3. A transparência da publicação dos buracos em folha Excel-simples,como se indicou anteriormente,  para esclarecer os cidadãos atinge a espessura fina das nanotecnologias. Não se vê, como convém. BPN? Madeira? . . . Buracos desconhecidos, ficticios e provocativos? Aldrabice nas contas outra vez? Têm que explicar! Parece que o Snr. PR está a acordar, mas se não tem consequências no OE-2012, é irrelevante a sua opinião.
4. O cidadão comum fica perturbado perante a política tortuosa, que oscila entre a quase mentira e a mentira tout-court. Dada a complexidade dos temas tratados num orçamento de estado OE, é perfeitamente natural e compreensível a perturbação dos cidadãos. Mas já se está bastante longe do come e cala e da falta de compreensão elementar da entrada traiçoeira dos políticos na bolsa dos cidadãos. É fácil compreender que devido ao anterior governo Sócrates e ao do actual Passos Coelho, o salário do funcionário público foi reduzido de cerca de 25%, num periodo relativamente curto. O cidadão deve começar a exigir um factor adicional de 15% sobre os políticos, totalizando 40% como prémio total para  a incompetência técnico-política de muitos responsáveis e da graduação das mentiras pinoquiais. Decidiu o PM atiçar o sector público contra o privado.Não convence.
5. A matriz dos últimos governantes Sócrates-P.Coelho-Seguro aponta para a partidocracia reinante. Que tal sujeitar os putativos candidatos a PM, a um exame prévio ao estilo da École Nationale?  Há um senão, quem é o irresponsável que amanhã se candidata a PM? Hoje ainda gozam da impunidade política.
Claro que ainda há gente séria. A estes é devida a gratidão de todos, pelo esforço que, na actualidade, deve ser sobre-humano. Mas medidas orçamentais, geradoras de inequidade patente, que só o fundamentalismo cego não vê, não muito obrigado.  Basta! Para acalmar os ânimos não vejam no texto qualquer vinculação política. Mas pretende não ser amorfo.
Para quem estiver interessado pode aceder
  1. À proposta de OE-2012, clicando aqui.
  2. Salários e benesses de caras politicas conhecidas da TV: tente aqui
  3. Conclusão: individual !!!